As eras do MMA por Eduardo Graça

Ao final da transmissão do UFC 98,quando o brasileiro Lyoto Machida sagrou-se campeão dos meio-pesados ao derrotar o explosivo Rashad Evans com o seu estilo “indecifrável”, o comentarista americano Joe Rogan anunciou o início da “era Machida”, já que Lyoto, após sua décima quinta vitória consecutiva, tornava-se o mais recente lutador a implementar um estilo que exige a desconstrução de velhos paradigmas e provoca a evolução do jovem espoorte conhecido como Mixed Martial Arts. Este fenômeno, porém,não é inédito. De tempos em tempos um lutador em particular mostra-se tão eficiente em sua abordagem de luta que, apenas anos depois de seus respectivos domínios, outros atletas serão capazes de entender o seu jogo e, finalmente, implementarem táticas e comportamentos adequados para tentar vencê-los. Tracemos pois, um panorama histórico de lutadores que precisaram ter seus estilos estudados, decifrados e aprendidos para que o mundo das arte marciais pudesse acompanhá-los. -A era Gracie (Novembro de ’93 a abril de ’95) Depois do Gracie jiu jitsu ser um personagem central do mundo do vale-tudo há décadas, foi em 1993, que Royce Gracie popularizou o jiu jitsu em nível mundial, após vencer o torneio de 8 lutadores em uma noite, no UFC 1. Quando fãs de artes marciais viram o franzino Royce controlando e finalizando oponentes maiores e mais pesados de sua guarda através dos 4 primeiros torneios do UFC, soube-se imediatamente, que sem o domínio da arte suave, era impossível prevalecer em um embate de artes marciais mescladas. O entendimento do jiu jitsu era tão limitado nesta época, que o próprio narrador do UFC 4, após ver Royce encaixando um triângulo no enorme Dan Severn; dizia que o brasileiro aguentaria pouco tempo por baixo da besta americana. Quando o gigante americano bateu, os membros da transmissão do UFC não sabiam exatamente de onde havia saído a finalização. Após o empate de 36 minutos contra Ken Shamrock no UFC 5, Royce Gracie ficaria 5 anos afastado do MMA, mas o seu legado já estava assegurado:a América conhecia o nome Gracie, e o MMA oficialmente recebia o Brazilian Jiu Jitsu como um fundamento básico. A era Ruas/Frye (Setembro de ’95 a Julho de ’96) Tanto Marco Ruas quanto Don Frye eram o rascunho do atleta de Mixed Martial Arts, mesmo quando ainda se pensava no esporte como “confronto de artes marciais”.Enquanto diversos atletas defendiam suas respectivas disciplinas, Marco Ruas e Don Frye venceram os UFC 7 e 8 respectivamente, ao mostrarem conhecimento de diferentes aspectos de luta. Marco Ruas, mestre em Muay Thai, luta-livre e proficiente também no jiu jitsu, apresentava perigo a seus oponentes independente da posição e circunstância da luta; Frye, excelente boxeador e wrestler, dominava seus oponenentes na trocação e no grappling, também mostrando estar anos-luz a frente de seu tempo e introduzindo ao mundo o protótipo inicial de “mistura” de artes marciais. A era Coleman/Kerr (Julho de ’96 a Outubro de ’97) Wrestlers condecorados, Mark Coleman e Mark Kerr descobriram que sua habilidade de colocar os adversários pra baixo, associada à força que possuíam, podiam definir combates de maneira brutal. Ao invés de buscarem chaves de cervical ou outras finalizações oriundas de sua base de wrestling; ambos os lutadores preferiam levar a luta para solo para então finalizar seus oponentes com socos e cotoveladas. Mark Coleman venceu os torneios do UFC 10 e 11, e então o lendário Dan Severn para se tornar o primeiro campeão dos pesos-pesados do UFC, em sua 12º edição. Mark Kerr, por usa vez, venceu os torneios do UFC 14 e 15 com um tempo médio de 1:18 minutos por luta; além de vencer suas 5 primeiras lutas no pride, em seguida. O MMA estava apresentado ao ground and pound. A era Frank Shamrock (Novembro de ’97 a Setembro de ’99) Seguindo os passos de Ruas e Frye, Frank Shamrock era versado em todos os aspectos do MMA. Tendo aprendido finalizações e wrestling de seu irmão adotivo Ken Shamrock, Frank dominou o cenário do Pancrase por dois anos, desenvolvendo sua trocação a um nível estelar para a época. Levado ao UFC depois de uma luta épica com Enson Inue, Frank Shamrock precisou apenas de 16 segundos para capturar o primeiro título dos meio-pesados do UFC, ao finalizar Kevin Jackson com um armlock. Frank ainda defenderia seu título 4 vezes contra Igor Zinoviev, Jeremy Horn, John Lober e Tito Ortiz, antes de se aposentar do octógono invicto. A era Sakuraba (Abril de ’99 a Março de ’01) Apesar de sua longa tradição em artes marciais, o Japão não teria um grande nome no MMA até o brilhante finalizador Kazuchi Sakaraba despontar no cenário mundial. Oriundo do pro-wrestling, Sakuraba foi enviado a um verdadeiro torneio de artes marciais como uma jogada publicitária de seu evento, no UFC Japan. Sakuraba não só venceu o torneio, como suas 3 primeiras lutas subsequentes, contra Vernon White, Carlos Newton e o fenômeno Vítor Belfort, já no PRIDE. Criativo, agressivo e temerário, Sakuraba venceria ainda 8 das suas próximas 9 lutas, derrotando adversários como Royler Gracie, Royce Gracie (em uma luta de 90 minitos), Renzo Gracie, and Ryan Gracie para ganhar o apelido de Gracie Hunter. A era Tito Ortiz (Abril de ’00 a Setembro de ’03) Depois de perder sua primeira disputa de título contra Frank Shamrock no UFC 22, Tito Ortiz teve uma nova oportunidade um ano depois, quando Frank aposentou-se do UFC e vagou seu cinturão. Tito Ortiz abusou dos seus takedowns para vencer na decisão contra Wanderlei Silva. Tito Ortiz ainda defenderia seu título mais 5 vezes até perdê-lo para Randy Couture no UFC 44, 3 anos e 5 meses após sagrar-se campeão. A era Wanderlei Silva (Dezembro de ’00 a Junho de ’05) Com sua agressividade incomparável, seu instinto assassino e seus cruzados e joelhadas brutais, Wanderlei Silva esmagou toda e qualquer competição a sua frente, vencendo nada mais do que 18 lutas seguidas e permanecendo invicto por 5 anos no PRIDE. Nesse período Wanderlei venceu o Grand Prix de 2003, derrotou Sakuraba 3 vezes, empatou com o peso-pesado Cro Cop, e nocauteou nomes como Guy Mezger, Fujita, Yoshida e Rampage Jackson(duas vezes), para se tornar uma lenda viva no Japão e em todo o mundo. A era Matt Hughes (Novembro de ’01 a Setembro de ’06) Com um estilo previsível e unidimensional, baseado apenas em wrestling Matt Hughes não parecia uma ameaça aterrorizante. Mas a força descomunal para sua categoria, aliada a uma rara força-de-vontade e uma inteligente mistura de wrestling e jiu jitsu, Matt Hughes destacou-se logo em sua estréia no UFC, quando recebeu um triãngulo de Carlos Newton e, momentos antes de apagar, conseguiu forças para erguer seu adversário do chão e nocauteá-lo com um histórico bate-estaca. Matt Hughes defenderia seu título por 9 vezes não consecutivas, obtendo vitórias sobre Frank Trigg, Sean Sherk, BJ Penn e Georges St. Pierre. Matt Hughes é detentor do recorde de mais disputas de títulos vencidas na história do UFC, junto com o veterano Randy Couture. A era Chuck Liddell (Abril ’04 a Dezembro ’06) Conhecido como Iceman por ser quieto e frio, Chuck Liddell talvez seja o rosto mais conhecido do MMA mundial, além de ser um dos lutadores mais bem pagos da história do esporte. A origem de todo este sucesso? Um estilo de luta simples, composto por uma exceente defesa de quedas e uma mão direita devastadora. Chuck Liddell começou sua carreira no UFC com 10 vitórias seguidas sobre adversáros como Vítor Belfort,Babalu Sobral, o peso pesado Jeff Monson, e o monstro Kevin Randleman. Mas foi depois de capturar o cinturão dos meio-pesados que Liddell veio a adquirir o status de lenda do esporte.Foram 2 anos, 7 lutas e 7 nocautes de reinado. Se este incrível cartel não fala por si só, vale mencionar que tais nocautes foram sobre Tito Ortiz (2 vezes), Randy Couture (2 vezes), Vernon White, Jeremy Horn, e Renato “Babalu” Sobral. A era Fedor (Março de ’03 até o presnte) Quando a categoria dos pesos-pesados do PRIDE parecia dominada pelo coração, raça e técnica do herói e lenda Rodrigo Minotauro, um russo gordinho chamado Fedor Emelianenko apareceu e introduziu ao mundo o maior reinado de todos os tempos na história do MMA. Com socos velozes e duríssimos, quedas violentas e um jogo de chão brilhante; o destaque no jogo deste russo fica por conta de sua criatividade, de sua habilidade de mudar sua estratégia no meio da luta e de seu inacreditável controle emocional. Fedor Emelianenko nocauteia, derruba, finaliza, raspa, inverte e absorve golpes de seus oponentes com a mesma expressão facial tranquila que também mantém antes e após suas lutas. O maior atleta da história da Rússia, Fedor tem 32 lutas e apenas uma derrota, dada sob circunstâncias controversas. Em dezembro de 2000, em luta pelo RINGS, o japonês Tsuyoshi Kohsaka acertou uma cotovelada ilegal no rosto do russo aos 17 segndos de luta. Os médicos não liberaram Fedor para continuar o combate e, como tratava-se de um torneio, um vencedor precisava ser anunciado. Desde então Fedor já acumulou 26 vitórias seguidas em 9 anos de invencibilidade, vencendo oponentes como Rodrigo Minotauro (2 vezes), Heath Herring, Kevin Randleman, Cro Cop, Tim Sylvia, Andrei Arlovski, Mark Coleman (2 vezes), Sammy Schilt, Mark hunt, além de tratorizar o próprio Tsuyoshi Kohsaka em uma revanche em 2005. A era Anderson Silva (Outubro de ’06 até o presente) Depois de sofrer derrotas para atletas como Ryo Chonan e Daiju Takase no PRIDE, discutia-se a consistência do talentoso especialista em Muay Thai Anderson Silva. Dois anos depois de sua última derrota no PRIDE, graduado faixa-preta em jiu-jitsu por Rodrigo Minotauro,com com a trocação mais afiada e imprevisível do que nunca, Anderson Silva fazia sua estréia no UFC contra Chris Leben. Desde então foram 9 vitórias seguidas, incluindo a conquista e 5 defesas do cinturão dos pesos médios além de uma vitória na categoria dos meio-pesados. Anderson Silva apresenta um jogo tão completo e devastador que seus adversários, sejam strikers como Rich Franklin, sejam wrestlers como Dan Henderson, sejam finalizadores como Thales Leites, não parecem encontrar meios para ameaçarem o Homem-Aranha brasileiro. Anderson Silva atingiu um nível tão proficiente e um jogo tão impecável e versátil, que é difícil antever um fim para o seu reinado no mundo das lutas. A era St. Pierre (novembro de 2006 até o presente) Georges St. Pierre é faixa-preta em karatê kyokushin, o que explica seus arsenal de chutes. George St. Pierre treina wrestling com a seleção nacional de wrestling do Canadá e já recusou convites para representar o seu país nas olimpíadas, o que explica sua eficiência em quedas e controle do oponente no chão. Geroges St. Pierre é faixa preta em jiu jitsu brasileiro, tendo como mestres Renzo Gracie e Bruno Fernandes, o que explica seu conforto no solo contra qualquer adversário. Os parceiros de treino de Georges St. Pierre revezam-se em turnos de 3-5 rounds cada em sessões de sparring contra St. Pierre, que chega a lutar 10 rounds seguidos contra parceiros de treino de até 2 categorias mais pesadas(como os meio-pesados Rashad Evans e Keith Jardine. Dado todo este gabarito não é surpresa que Georges St. Pierre tenha vencido 18 de suas 20 lutas profissionais incluindo revanches contra os únicos atletas que já o venceram, Matt Hughes e Matt Serra. St. Pierre talvez seja o espécime que melhor explique o objetivo e a eficácia do coneceito de “mixed martial arts”. A era Lyoto Machida (Maio de ’09 até ???) Lyoto Machida, mestre em karatê shotokan, faixa-preta em jiu-jitsu e expert em sumô; trouxe um novo formato para o esteriótipo do lutador de MMA geralmente formado com base em boxe/muay thai + wrestling/judo + jiu jitsu. Sua dinâmica de entrada e saída, trazida por sua formação no karatê; sua inigualável noção de tempo e distãncia; sua incrível variedade de ângulos gerados por sua peculiar movimentação e seu vasto arsenal de golpes, fintas e entradas fazem de Lyoto Machida o trocador mais preciso e intocável do MMA atual. Seu jogo de clinch e suas quedas inusitadas também são um mistério para todos os seus adversários. O mais interessante sobre este karateca paraense é que seu estilo de luta é o mesmo contra qualquer adverário, e ainda assim nenhum deles consegue acertar golpes nem quedas em Machida, enquanto ele parece muito calmo e plácido ao servi-los com um banquete de chutes, socos e quedas, sempre na hora certa sem se expôr a qualquer tipo de agressão. Talvez até mesmo analistas de artes marciais precisem de tempo e de aprendizado para descrevem com precisão os fatores que permitem que o “The Dragon” pareça intangível quando seus oponentes atacam e arrebatador quando investe contra eles. Lyoto Machida nunca perdeu sequer um round em suas 7 vitórias no UFC, e suas duas últimas lutas terminaram em nocaute contra dois adversários previamente invictos. Lyoto acaba de conquistar o cinturão da categoria mais disputada do UFC e parece ter dado início a mais uma longa era de domínio nos meio-pesados. Quando sua era acabar, aparentemente há alguns anos, o MMA estará mais uma vez modificado, evoluído, reeducado. baseado em um artigo do cagepotato.com

Contribuição: Eduardo Graça

2 Responses to “As eras do MMA por Eduardo Graça”

  1. Robson Freitas on Junho 14th, 2009 at 21:47

    O jiu jitsu (brasileiro) já provou até agora ser, isoladamente, a arte mais eficiente, porém sabe-se que num combate real ou em um vale-tudo o lutador, para se destacar, deve saber não só jiu jitsu e sim um conjunto MMA. Entretanto do ponto de vista público, espectadores, telespectadores, etc, leigos ou não, as artes marciais, da maioria orientais, sempre trouxeram beleza e emoção aos combates com os seus momentos francos de trocação e chutes severos como coreografados. Lyoto Machida resgatou essa beleza em seus combates reavivando e trazendo de volta academias de Karate e similares que além de um estilo eficiente abriga em sua história milenar conceitos e atitudes disciplinares orientais eficientes em todas as eras.

  2. Otima Materia, incrivel, espetacular, sem palavras.

    Parabens

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